A revolta das mulheres continua sem dia marcado

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É tão violento o recuo do Supremo Tribunal norte-americano nos direitos das mulheres face ao aborto quanto a inominável opressão afegã na obrigação de uso da burca pelas mulheres. Entretanto, as violações, frequentemente levadas a cabo pelas hordas de exércitos invasores ao longo da história, estacionam de novo à nossa frente. Estamos em 2022 e somos confrontados com a aparente novidade de a Rússia, enquanto país, ter um comportamento social dominante tão misógino que se torna num excremento civilizacional a flutuar no século XXI. A idade moderna vive a sua idade média.

O tema do aborto na América é um anacronismo. Com todas as técnicas contracetivas à disposição nos países desenvolvidos, a interrupção da gravidez é sempre fruto de uma tragédia. E a sua consequência reflete-se depois nas trincheiras: de um lado, incompreensão por quem defende que, de facto, há uma questão de direito à vida que está presente; do outro, ignorar-se que só uma enorme infelicidade leva uma mulher até essa opção tão difícil, a essa cicatriz na sua história. E que, portanto, há que ter a humildade de não decidirmos pelos outros. É o mínimo que uma sociedade deve fazer. Além disso, exige-se a garantia de condições medicamente assistidas para que esta ação não se transforme num ato de clandestinidade ou ainda maior dor.

Nos bastidores destes problemas, duas fábricas de produção de valores: a religião e doutrinas políticas absolutamente desumanas. Um ponto em comum: ambas minimizam a autonomia e inteligência de mais de metade da humanidade. As mulheres não têm voz paritária nos fóruns onde a moral e o direito se escrevem. É assim desde que a humanidade surgiu. E já estamos em 2022 d.C..

Putin é um canalha misógino, sem compaixão nem qualquer valor humanista. O patriarca máximo da Igreja Ortodoxa, em Moscovo, é um servo de um deus menor - o poder do Kremlin. Os fundamentalistas que ditam as leias na Arábia Saudita, Cabul ou Teerão, não merecem a sorte de ter nascido de um corpo de uma mulher. O extremismo judeu é um anacronismo a que ninguém com dois dedos de testa em Israel presta qualquer atenção. O Vaticano, até à chegada do Papa Francisco, destruiu qualquer relevância das mulheres na Igreja, impedindo igualmente a neutralidade católica sobre as formas de amar nos novos tempos.

Aqui chegados, não resta mais do que implorar às mulheres de todo o mundo que, pela primeira vez na História, vão além do direito ao voto, do direito ao aborto, do direito à igualdade. Para resgatarmos o mundo de uma casta de homens que pensa através da testosterona e não dos neurónios, ou as mulheres se unem e salvam este planeta, ou perecemos. E só há uma forma de o fazerem: obterem o direto à absoluta paridade, concreta, em todos os campos humanos, desde a justiça à religião. Têm na sua mão a arma do boicote. O mundo não funciona sem elas.

Os tempos que vivemos mostram como muitos homens com poder não evoluem. O mundo é um brinquedo, uma projeção de si, na equação simples e máxima de uma vida inteira a navegar por Freud. No ridículo caso presente: o meu (nuclear) é maior que o teu. Ora já nada disto interessa. Os machos-alfa fazem parte da pré-história da civilização. Para fazer renascer este mundo em esperança e equilíbrio, talvez só uma mudança radical, vinda do lado da humanidade que sabe o que é amar para fazer crescer. É preciso obrigar a sociedade à alternância entre homens e mulheres em todas as formas de poder. O mundo também é das mulheres. E é inacreditável como esta última frase não consegue ser verdadeira.


Jornalista

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